sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Pesquisa investiga efeitos de agrotóxicos em abelhas

Um terço de tudo que se come no mundo depende da polinização realizada pelas abelhas. É o que mostram dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO/ONU), que aponta as abelhas como agentes fundamentais na promoção da segurança alimentar e, de outro lado, destaca a preocupação com as evidências da diminuição da população desses polinizadores. Uma das causas dessa diminuição é o uso de pesticidas nas plantações.


A influência dos defensivos agrícolas sobre as abelhas e o consequente impacto na produção de alimentos é o foco das pesquisas da professora Roberta Cornélio Ferreira Nocelli, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Campus Araras. 

Um dos objetivos do trabalho é o mapeamento dos apiários em todo o território brasileiro, bem como das produções agrícolas próximas, visando compreender a interação entre apicultores e agricultores e promover o cultivo saudável de abelhas e alimentos.

O Brasil é o país com a maior diversidade de abelhas, com mais de duas mil espécies nativas já descritas. É, portanto, um importante espaço para pesquisar o impacto dos agrotóxicos nas abelhas e os consequentes efeitos nos serviços que elas prestam. 

Nocelli explica que a contaminação das abelhas pelos defensivos agrícolas ocorre basicamente de duas formas: pelo contato direto, enquanto as abelhas voam entre as partículas de defensivos; e pela ingestão de pólen e néctar das flores contaminadas. A segunda forma é a mais nociva para os insetos, pois as moléculas são levadas para dentro das colônias, contaminando todas as abelhas.

Os estudos desenvolvidos por Roberta Nocelli investigam as interações das substâncias presentes nos agrotóxicos em vários órgãos das abelhas, como, por exemplo, no cérebro desses animais. Um dos efeitos observados é a perda da orientação, o que faz com que muitas abelhas não retornem às colmeias e morram. 

"A partir do momento em que entendemos os efeitos de cada substância utilizada nas plantações, podemos orientar os fabricantes dos defensivos para a utilização de moléculas menos tóxicas para as abelhas, e também para formas de aplicação menos danosas. 

"Entender a biologia da abelha nos serve de respaldo para promover esse diálogo, uma vez que sabemos que a completa interrupção no uso de defensivos é uma realidade muito distante", afirma a pesquisadora. 

O trabalho compreende também um projeto de extensão, que atua com associações de apicultores para implantar um sistema de monitoramento das populações de abelhas, de forma a identificar a mortandade dos insetos e desenvolver metodologias de manejo mais adequadas. Entre os objetivos do projeto, está a promoção da convivência harmônica entre apicultores e agricultores. 

Uma das atividades desenvolvidas é o treinamento para a aplicação dos agrotóxicos, que, com base nas pesquisas desenvolvidas, é planejada para minimizar os prejuízos às populações de insetos.

Nocelli integra uma rede de pesquisa formada por pesquisadores dos campi Araras e Sorocaba da UFSCar e da Unesp de Rio Claro, que desde os anos 1970 estuda a ecotoxicologia de abelhas. 

O grupo tem participado ativamente na construção da Iniciativa Internacional para a Conservação e Uso Sustentável de Polinizadores, coordenada pela FAO, e de outras iniciativas internacionais relacionadas ao conhecimento sobre os efeitos dos pesticidas sobre os polinizadores e alternativas de proteção desses insetos, manutenção da biodiversidade e da segurança alimentar. 

Nocelli pretende também criar uma central de acidentes com abelhas, para que produtores que tiverem notícias de mortes de abelhas possam relatar os episódios e, assim, contribuir para o monitoramento. 


Fonte: UFSCAR

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