sexta-feira, 14 de março de 2014

Pesquisa observa relação entre ecoturismo e educação ambiental


A proliferação de atividades ligadas ao ecoturismo propiciou, nas últimas décadas, o aumento de pessoas que visitam ambientes naturais como ação de contemplação, busca de bem estar e relaxamento. 


No entanto, a percepção de que, em raras oportunidades verifica-se o desenvolvimento de ações de educação ambiental nesse setor, levou o biólogo Renato Bacchi a buscar entender como essa prática tem sido trabalhada durante essas ações. 

“Essa pergunta surgiu ao observar a importância da educação ambiental para o ecoturismo e os benefícios que o ecoturismo poderia trazer para a educação ambiental, sendo que pela experiência pessoal como ecoturista eu raramente via atividades de conscientização ambiental durante os passeios”, conta Bacchi. 



No programa de Pós-graduação em Ecologia Aplicada, da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (USP/ESALQ), o pesquisador realizou um estudo de caso analisando quantitativamente e qualitativamente a educação ambiental que ocorre durante atividades de ecoturismo no Parque Estadual da Serra do Mar, Núcleo Santa Virgínia, SP.

 Sob orientação de Odaléia Telles Marcondes Machado Queiroz, professora do Departamento de Economia, Administração e Sociologia (LES) e coorientação de Zysman Neiman, docente do Departamento de Ciências Humanas e Educação, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar),Campus Sorocaba, o autor do trabalho levantou conjunto de informações importantes que contribuirão para uma melhor compreensão do papel da educação ambiental no segmento ecoturístico.

O projeto foi realizado no Núcleo Santa Virgínia do Parque Estadual da Serra do Mar, com sua sede localizada no município de São Luiz do Paraitinga (SP), no Vale do Paraíba. 

“O local se mostra propício para este estudo, já que abriga diversas cachoeiras, rios, paisagens, inclusive protegendo o Rio Paraibuna, o qual forma o Rio Paraíba do Sul”, relata. 


Segundo Bacchi, no interior do Núcleo existem 6 trilhas interpretativas abertas para a visitação e o rafting, que ocorre no Rio Paraibuna. 

“Todas as visitas são agendadas e acompanhadas de um monitor ambiental ou do guia do rafting”.

Na prática, o biólogo aplicou questionários com os visitantes que realizaram ou alguma das trilhas ou orafting. 

O questionário analisou a aceitação dos participantes em relação à educação ambiental no ecoturismo, o que as pessoas buscam em um passeio ecoturístico e sua percepção em relação às atividades. 

Os dados qualitativos foram coletados a partir de entrevistas com os monitores do núcleo, com o gestor da área e com um responsável pela operadora de rafting. 

“Ainda foram realizadas observações em campo, quando acompanhamos diversos grupos nas trilhas do parque e durante a descida de rafting”.



Após a coleta de dados, o estudo comparou os resultados com os princípios e diretrizes de documentos que regem a educação ambiental no Brasil, como o ProNEA (Programa Nacional de Educação Ambiental) e o ENCEA (Estratégia Nacional de Comunicação e Educação Ambiental no Âmbito do Sistema Nacional de Unidades de Conservação). 

“Posteriormente, discutimos a educação ambiental realizada no Núcleo baseando-se nas diversas vertentes da educação ambiental, a fim de entender as potencialidades e benefícios que estas atividades podem trazer”.

Segundo o pesquisador, os principais resultados mostram a grande aceitação dos visitantes pela educação ambiental no ecoturismo. 



“Praticamente 99% dos participantes do rafting e 98% das trilhas disseram que deve existir educação ambiental durante atividades de ecoturismo. 

Ainda estes disseram que o que os motiva a realizar ecoturismo é o contato com a natureza em primeiro lugar e a vontade de aprender algo novo em segundo lugar, mostrando assim um grande interesse na prática educativa em contato com a natureza”.

Bacchi lembra ainda que foi possível perceber um esforço extremamente positivo por parte do Núcleo em incorporar a educação ambiental durante as visitas, abordando desde informações sobre o ambiente local, sensibilização dos visitantes e ampliando as discussões para temas sobre o ambiente global e até questões sociais. 

“Durante as observações, tanto nas trilhas quanto no rafting, foi possível notar diversos comentários dos ecoturistas sobre a beleza do local, sobre os sons que escutavam, comentários positivos sobre as informações que o guia passava e uma grande satisfação por estar realizando o passeio. 


Nos questionários encontramos também relatos sobre emoções e sentimentos relacionados à esta sensação de relaxamento, bem-estar e de pertencimento ao ambiente visitado, sendo que não houve nenhuma reclamação em relação aos monitores ou ligadas à educação ambiental”.

Entretanto foi possível notar que, apesar de atividades e conceitos aplicados mostrarem-se positivos, a educação ambiental não tem sido discutida na teoria, nem durante os cursos de capacitação, nem no dia a dia dos monitores.

“Essa falta de discussão e de entendimento da educação ambiental pode fazer com que os monitores do núcleo estejam apenas repetindo valores, não se beneficiando das ações realizadas e não aproveitando todo o potencial que a educação ambiental do núcleo pode oferecer, tanto para os monitores quanto para os visitantes”, observa.



O estudo teve apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e conclui que, para que se possa dar uma configuração à educação ambiental no ecoturismo se faz necessário entender como essa educação tem sido trabalhada pelos monitores e guias locais. 

“Somente após uma avaliação da situação atual, logicamente respeitando-se as realidades ambientais, culturais e socioeconômicas de cada local, é que se pode propor melhorias para efetivamente colocá-las em prática. 

O passeio à natureza faz o visitante se sentir responsável por aquele ambiente e mudar suas atitudes, adotando um comportamento ético em relação ao meio natural, principalmente se esta permanência for direcionada para a sensibilização do indivíduo a partir da educação ambiental”, finaliza Renato Bacchi.



Fonte : Caio Albuquerque

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