sábado, 8 de março de 2014

Poluição e urbanização fazem incidência de raios aumentar em São Paulo



O número de tempestades com raios na cidade de São Paulo é hoje maior do que no século 19, e um novo estudo aponta quais são os principais componentes da urbanização culpados pelo fenômeno: a poluição e o asfalto.

A conclusão saiu de uma série de estudos liderados pelo geofísico Osmar Pinto Jr., do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), que apresentaram alguns resultados num congresso científico em São Paulo.

Segundo o cientista, o primeiro fator a contribuir para a alta incidência de raios na cidade é a substituição de cobertura vegetal por asfalto e concreto, que cria uma “ilha de calor” no perímetro urbano, tornando a cidade de 3°C a 5°C mais quente.

“O ar quente é mais leve, e quando uma frente fria ou uma instabilidade chegam, elas o jogam para cima”, explica Pinto. “Toda nuvem se forma a partir disso. 

O ar úmido jogado para cima chega a altitudes maiores, onde é mais frio, e a umidade se transforma em gotículas de água, formando nuvens.”

Já a poluição alimenta o problema porque partículas de fuligem e subprodutos da queima de combustíveis servem como “núcleos de condensação” -pontos a partir dos quais as moléculas se agregam e formam gotículas.

O trabalho de levantar dados para comprovar essa tese, porém, não foi nada fácil. Os princípios físicos descritos no estudo já estavam bem estabelecidos em 2003, quando Pinto, líder do Elat (Grupo de Eletricidade Atmosférica do Inpe), tentou reunir os primeiros indícios de que a incidência de raios estava sendo afetada por urbanização e por poluição. 

Os números obtidos para o clima do município, porém, não tinham poder estatístico para confirmar a teoria.

“Dez anos atrás a gente não ainda não tinha uma ideia de como quantificar esses mecanismos”, conta Pinto. 

“Poderia ser que tivessem uma influência de 1% na incidência de tempestades, mas poderia ser que ele influenciasse 99% do processo. Nós não sabíamos se esses mecanismos eram desprezíveis.”

O grupo de cientistas desconfiava, porém, que a área do município de São Paulo era pequena demais para ser estudada como um sistema fechado. 

Após incluir dados climáticos de Campinas e do Vale do Paraíba no estudo, tudo começou a fazer mais sentido. 

A urbanização e a poluição afetavam a incidência de raios em cidades satélites também, porque, as nuvens formadas sobre São Paulo se deslocavam.

Comparando dados de dias úteis com os de fim de semana (com menos carros emitindo poluição), a influência da concentração de particulados no ar ficou muito mais evidente. 

Pinto apresenta seus resultados novos nesta semana na Conclima, conferência nacional sobre mudanças climáticas, em São Paulo.

O trabalho do Grupo de Eletricidade Atmosférica do Inpe é tema também de um documentário que estreia em 11 de outubro. 

O filme “Fragmentos de Paixão”, dirigido pela jornalista Iara Cardoso, fala sobre pesquisas na área a partir da perspectiva de vítimas de raios no país. 

Fonte: Folha.com

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