quinta-feira, 10 de julho de 2014

Risco fitossanitário aumenta com a entrada de estrangeiros para a Copa


Uma coisa é conviver com pragas “nacionais” ou “naturalizadas”. Outra situação bem diferente é ter que enfrentar às pressas adversários inesperados, contra os quais não há armas disponíveis, como as pragas existentes em outros países, mas sem registro no Brasil, que ao final da Copa do Mundo terá recebido cerca de 600 mil estrangeiros. 

Mas o que preocupa realmente são os “acompanhantes” invisíveis a olho nu, que podem vir em calçados, roupas e alimentos e chegarem até as lavouras brasileiras.

De acordo com pesquisadoras da área de fitossanidade do Instituto Agronômico (IAC), de Campinas, os turistas podem trazer pragas como contaminantes em seus calçados, roupas ou frutas, por exemplo, para consumo próprio ou para presentes.


 “O risco é desconhecido, no entanto, pode ser muito elevado”, afirma Christina Dudienas, pesquisadora do Instituto Agronômico (IAC), de Campinas, da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.

O IAC tem um dos dois quarentenários brasileiros e a tarefa de analisar a qualidade fitossanitária de materiais vegetais para fins de pesquisa. 

Qualquer material importado de outro país para fins de pesquisa ou para uso de empresas importadoras, deve, obrigatoriamente, passar pela fase de quarentena, que pode durar de três a seis meses, dependendo da espécie vegetal. 

Dentre os usuários do Quarentenário IAC estão empresas — como Basf, Bayer, Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), Monsanto, Monsoy, Souza Cruz, Syngenta — e universidades, como Unesp e Unicamp.

Para a agricultura brasileira e especialistas em fitossanidade, situações com o Mundial de Futebol e a intensa entrada de estrangeiros trazem a preocupação com a possível introdução de pragas inexistentes em território nacional, como insetos, ácaros, fungos, bactérias, nematoides ou vírus, que causam danos às plantas e prejuízos aos agricultores e à economia brasileira.

A fiscalização da entrada de materiais vegetais no Brasil é atribuição do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), que credenciou o Quarentenário do IAC para colaborar no sistema de defesa vegetal do Brasil. A Unidade do IAC tem o Certificado de Qualidade em Biossegurança (CQB).

O quarentenário do IAC, em Campinas, tem localização privilegiada por estar próximo a dois grandes aeroportos internacionais, o de Viracopos e o de Cumbica, além da ampla malha rodoviária da região. O outro quarentenário brasileiro pertence à Embrapa e fica em Brasília.

Segundo o Ministério, os trabalhos de fiscalização do trânsito internacional de passageiros começaram cinco dias antes do início do evento nas 12 cidades brasileiras onde têm sido realizados os jogos.

Em 2013, IAC detectou praga inexistente no Brasil.

Instituto já recebeu materiais de 40 países.

Exemplo recente da importância do trabalho do Quarentenário IAC está na detecção de uma praga inexistente no Brasil, feita em 2013. O patógeno estava em uma carga importada de estévia, planta utilizada como adoçante natural.

O pesquisador do IAC, Valdir Yuki, especialista em virologia, detectou um vírus da família Cucumovirus, já detectado na América do Norte, Ásia e Europa, causando elevados danos a várias culturas. 

Cerca de 80 espécies de plantas, entre daninhas e cultivadas, podem ser infectadas por esse vírus. 

Dentre elas estão: amendoim, feijão, soja, fumo, ervilha, pimentas e pimentões, abóboras e abobrinhas, melancia, pepino, beterraba, tomate, girassol, entre outras.

“Caso esse vírus venha a ser introduzido, pode causar grandes prejuízos, pois como são transmitidos por várias espécies de pulgões, eventualmente podem ser transmitidos pelas sementes”, diz Yuki. Nos Estados Unidos e no Japão houve perdas significativas, principalmente em culturas de soja, amendoim e feijão.

Em 2013, o Quarentenário IAC recebeu um número recorde de 182 materiais vegetais para análise. Trata-se de um aumento constante, ano a ano, de aproximadamente 10%, segundo Roberta Pierry Uzzo, pesquisadora do IAC e coordenadora substituta do Quarentenário.

Apesar da preocupação com a entrada de pragas no Brasil, poucos materiais que chegam ao quarentenário apresentam pragas. 

“No ano passado, encontramos apenas três introduções que foram eliminadas por contaminação, em cana, estévia e soja, do total de 182 quarentenas”, diz Roberta.

Segundo Roberta, o trabalho de quarentena é essencial para a segurança da agricultura de um país. “O nosso objetivo é conter, detectar e identificar pragas. Para isso, temos estruturas, procedimentos e registros fiscalizados e aprovados pelo MAPA, que se fazem necessários para a prevenção da entrada de pragas exóticas no Brasil”, ressalta.

Christina Dudienas, que coordena o Quarentenário IAC, afirma que a Unidade pode receber material vegetal originário de qualquer país e a solicitação pode ser feita por qualquer instituição, desde que tenha a autorização do MAPA. 

“Já recebemos materiais de cerca de 40 países, dentre eles, Estados Unidos, Austrália, Canadá, Espanha, França, Índia, Itália, Suíça, Japão, China e outros”.

O trabalho no local é realizado por especialistas de diversas áreas, como entomologista, especialista em plantas daninhas, nematologista e fitopatologista, que têm conhecimento em pragas como bactérias, fungos, vírus e viróides. 

Segundo Roberta, o trabalho em equipe é essencial, pois o conhecimento multidisciplinar viabiliza a possibilidade de detecção dos mais diversos tipos de pragas. 

O trabalho de quarentena do IAC é realizado por uma comissão, que tem a finalidade de executar as atividades de inspeção, detecção e contenção de pragas. 

Além de Christina Dudienas, Roberta Pierry Uzzo e Valdir Atsushi Yuki, a comissão é formada por outros 14 pesquisadores do IAC, dois pesquisadores do Instituto Biológico (IB), estagiários e bolsistas.

Alguns casos de pragas que assolaram a agricultura no Brasil ficaram marcados e serviram de exemplo para reforçar cada vez mais a segurança fitossanitária. 

No final da década de 50, o cancro cítrico, de provável origem asiática, causou perdas consideráveis nos Estados de São Paulo e Paraná. Outro exemplo foi o bicudo-do-algodoeiro, detectado na década de 80, que causa prejuízos até hoje. 

“O controle dessa praga é feito com aplicações intensivas de inseticida”, diz Christina. A ferrugem asiática, encontrada na cultura da soja na primeira década de 2000, causou perdas de até 75%.

Recentemente, a Helicoverpa armigera vem trazendo preocupação por seu ataque intenso nas regiões produtoras de soja, milho e algodão, além de outras culturas, como hortaliças. Estima-se que no Estado da Bahia os prejuízos cheguem a R$ 2 bilhões, devido à ocorrência nas culturas da soja e algodão.

- Entenda como funciona o processo de quarentena do Quarentenário IAC:

O processo para as empresas ou instituições submeterem análises no quarentenário leva cerca de três meses para culturas anuais, como hortaliças e grãos, e aproximadamente seis meses para as perenes, como café, cana e citros. Quarentena vem do italiano quatarantina, que significa quarenta. 

A expressão tem origem no passado, quando em caso de suspeita de doenças contagiosas, o isolamento recomendado era de, no mínimo, 40 dias.

As instituições interessadas em submeter materiais à análise entram em contato com o Quarentenário IAC, que pode aceitar ou recusar os materiais, conforme o volume de atividades. A documentação necessária para a importação do material é determinada pelo MAPA. 

Nos aeroportos ou portos, as caixas com material vegetal são abertas e conferidas por fiscais do MAPA, que as encaminham ao Quarentenário IAC, onde os materiais são conferidos, registrados, armazenados e encaminhados para análises.

Se não for constatada nenhuma praga, o IAC emite o Laudo final de Inspeção Fitossanitária e comunica o MAPA, responsável pela emissão do Laudo de Liberação. 

Só então a empresa importadora é comunicada para retirada o material no Quarentenário. Se houver detecção de praga, a empresa é comunicada, o MAPA emite um Laudo de Eliminação e todo o material é autoclavado e incinerado.

Enviado por : Carla Gomes

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