quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Pesquisa aponta novos rumos para a regeneração da Mata Atlântica e do Cerrado


Pesquisa recente realizada no Departamento de Ciências Ambientas (DCA) do Campus Sorocaba da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) aponta novos rumos para a regeneração da Mata Atlântica e do Cerrado. 

Os estudos realizados pelo professor do DCA, Alexander Vicente Christianini, e equipe, argumentam que com a extinção gradual dos vertebrados (aves, macacos, antas, morcegos) frugívoros (que comem frutos), a importância das formigas será cada vez mais relevante para a dispersão de sementes e, consequentemente, para a manutenção e regeneração de florestas e Cerrado.

O trabalho aponta quem com a fauna em declínio as formigas herdarão as interações com as plantas. Além disso, o estudo destaca a importância que as formigas progressivamente terão nos ecossistemas a partir das extinções de vertebrados causadas pelo homem.

Cerca de 90% dos arbustos e árvores em ecossistemas tropicais, por exemplo, produzem frutos com polpa nutritiva que atrai animais como aves, macacos, antas e morcegos. E, como consequência, as sementes são dispersas a grandes distâncias, mas muitos frutos removidos pelas aves e mamíferos chegam ao solo com a polpa ainda presente.

Além disto, os frutos também podem cair das árvores espontaneamente quando maduros. No chão, as formigas desempenham um papel fundamental removendo a polpa dos frutos e dispersando as sementes para o ninho, onde a germinação irá ocorrer e a planta jovem crescerá em condições mais propícias devido ao solo rico em nutrientes junto ao formigueiro.

Estudos recentes mostraram que este papel benéfico das formigas é muito comum na Mata Atlântica e no Cerrado.

Para o professor Alexander Vicente Christianini, a pesquisa ganha relevância nos dias atuais porque "o mundo está passando por enormes transformações provocadas pelo homem, que podem não ser muito percebidas pelo cidadão comum.

Estas transformações até motivaram os cientistas a cunhar um novo termo chamado “antropoceno” para designar a era geológica pela qual estamos passando, em que o homem é agente determinante da trajetória da vida no planeta.

Muito se fala sobre mudanças climáticas globais, por exemplo – e com razão – mas muito menos atenção tem sido devotada à perda de populações e espécies em escala global e o impacto que estas perdas estão trazendo para os sistemas naturais e o próprio homem. Alguns destes efeitos estão se tornando conhecidos por cientistas que trabalham com ecologia, mas ainda são obscuros para o público geral", relata o professor.

Com a evidente diminuição generalizada em populações de animais que possuem um papel importante, direto ou indireto, na vegetação onde ocorrem, seja comendo partes de plantas, polinizando flores ou dispersando sementes, há alguns grupos de bichos que parecem ser menos afetados, como certas formigas.

"As formigas são muito abundantes em praticamente todos os ambientes terrestres ao redor do mundo, com exceção dos pólos e montanhas muito altas e frias. Nestes locais, elas interagem com muitas plantas, artrópodes ou mesmo vertebrados, e compõem parte importante da biomassa de animais.

Há estudos que mostram, por exemplo na Amazônia, que se juntássemos todas as formigas e cupins em um lado de uma balança e no outro lado da balança todos os vertebrados terrestres (onças, antas, porcos-do-mato, veados, macacos, etc), a balança penderia para o lado das formigas e cupins. E a ação do homem está enviesando ainda mais esta balança. Isso nos dá uma ideia de que as formigas devem ter um papel importante nestes sistemas onde ocorrem.

Por exemplo, temos evidências de que as formigas podem dispersar tantas sementes quanto aves em algumas áreas de Cerrado", destaca o professor Alexander.

A pesquisa desenvolvida no DCA da UFSCar ainda busca "entender em maior detalhe qual o impacto relativo das formigas na regeneração de plantas que interagem normalmente com vertebrados, do ponto de vista positivo - como na dispersão de sementes e estabelecimento de plântulas nos ninhos de formigas - e negativo - como na destruição de sementes e herbivoria - e como estas interações são afetadas por perturbações provocadas pelo homem, como perda e fragmentação de habitats, bordas com cultivos agrícolas, estradas", comenta Alexander.

Outra perspectiva futura para os estudos é tentar descobrir "como reverter este processo de defaunação em escala global. Refaunar nossos ambientes de maneira adequada será muito mais difícil do que restaurar os habitats destruídos, o que por si só já é uma tarefa hercúlea.

Veja que estamos passando pelo meio de uma grave crise de abastecimento de água, que também pode ser decorrente, ao menos em parte das mudanças, que promovemos no meio ambiente ao longo dos séculos. Claro que há problemas como desperdício na distribuição e consumo de água, além de problemas de planejamento, mas pouco tem se falado sobre a poluição de nossos corpos d’água, do assoreamento e mau uso da terra", completa o pesquisador.

Os estudos realizados pelo professor Alexander Vicente Christianini e equipe resultaram na produção do artigo "Fauna in decline: Meek shall inherit". No inicio do mês de setembro, o texto foi publicado na revista americana Science, um dos mais importantes periódicos científicos do mundo.

Além de Alexander, também elaboraram o artigo os pesquisadores Paulo Sérgio Oliveira, do Departamento de Biologia Animal da Unicamp; Emílio Bruna, do Departamento de Ecologia da Vida Selvagem e Conservação da Universidade da Florida; e Heraldo Vasconcelos, do Instituto de Biologia da Universidade Federal de Uberlândia.

O título do artigo é baseado em uma passagem da bíblia que traduzida seria algo como “Fauna em declínio: Os humildes herdarão”, indiretamente sugerindo que os animais pequenos (as formigas) herdarão as interações perdidas com a diminuição na abundância de outras espécies maiores.

Os trabalhos publicados na revista Science passam por rigorosos critérios de avaliação. Para o professor Alexander, a aceitação do artigo por parte da revista americana é um reconhecimento do trabalho realizado pela ciência brasileira.

"Ficamos muito felizes, claro. A publicação foi um exemplo para nós de um ótimo trabalho em equipe. Não é nada fácil publicar nestas revistas, mas uma vez ultrapassada esta barreira, o trabalho, a instituição e os autores ganham enorme visibilidade e repercussão positiva", conclui o professor.


Fonte: UFScar /Arquivo Alexander


 

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