sexta-feira, 25 de setembro de 2015

O papel estratégico das abelhas na conservação da biodiversidade


Os polinizadores possuem um papel crucial na conservação da biodiversidade. Quase 90% das plantas com flores são dependentes de animais para a transferência de grãos de pólen em quantidade suficiente para a fertilização dos óvulos e a consequente formação de frutos e sementes,permitindo sua multiplicação. 


Sempre pensamos nas abelhas como insetos exclusivos da polinização, contudo existem muitos outros que fazem parte desta cadeia, a exemplo de pássaros, morcegos, besouros, borboletas e mariposas.

Das 115 culturas agrícolas que lideram a produção global, 70% se beneficiam da ação desses polinizadores, o que representa 35% do suprimento alimentar para a população humana. Esse benefício é refletido na produção de frutos maiores, mais pesados e vistosos, com maior número de sementes, maior teor de nutrientes e maior valor de mercado, o que se traduz em lucro direto para o agricultor. 

No Brasil, cerca de 60% das culturas agrícolas de importância econômica - para alimentação humana, vestuário, pecuária, biocombustível - dependem, em algum grau, de polinizadores, que contribuem com quase 30% do valor anual da produção agrícola nacional.

Por sua importância, vamos nos concentrar nas abelhas. Elas são elementos e elo importante na cadeia produtiva e reprodutiva mundial. As abelhas formam um grupo numeroso de insetos, com cerca de 20 mil espécies descritas no mundo. 

O alto número de espécies também reflete na diversidade de tamanhos, cores, preferências florais e locais para fazerem seus ninhos. E, ao contrário do que muitos pensam, a maior parte das espécies é solitária. Isso significa que uma fêmea faz todas as tarefas: procura um local apropriado para fundar seu ninho, o defende, busca material para construir as células de cria, coleta alimento para sua cria e põe os ovos.

Entre as abelhas com sociedades avançadas, aquelas que formam colmeias, estão as conhecidas abelhas melíferas ("abelha africanizada", "africana", "europeia") e as abelhas sem ferrão. Elas produzem o mel, a própolis, a cera, e também atuam diretamente na polinização de plantas, sejam elas de ambientes naturais ou de interesse agrícola (frutas, legumes, fibras, castanhas), ou seja, prestam um importante serviço cujo valor econômico e desconhecido para a grande maioria das pessoas.

No Brasil já existem mais de 1.830 espécies identificadas, mas com certeza existe um número muito superior a este, distribuídas nas florestas, pantanal, cerrados, caatinga, pampa. Possuem diferentes tamanhos, cores, e formas de organização - solitárias e sociais. Entre as abelhas sem ferrão (apenas no Brasil, conhecemos 240 espécies), as mais conhecidas são a jataí, a uruçu, a mandaçaia. 

Contudo, a mais conhecida ainda é aApis mellifera (conhecida como abelha africanizada), muito utilizada para a produção de mel, própolis, geleia real e para polinização dirigida. Mas ela não é nativa do Brasil, e é um híbrido das subespécies europeias (A. mellifera carnica, A. mellifera ligustica), introduzidas pelos jesuítas no século XIX, com a subespécie africana (A. mellifera scutellata), introduzida em 1956, com a finalidade de alavancar a apicultura nacional.

Redução da população:

A diminuição das populações de abelhas, assim como de muitas outras espécies de animais, tem sido registrada e tem causado preocupação pública crescente. Várias matérias estão sendo divulgadas, muitos cientistas têm se dedicado a esse assunto e diversos fatores estão sendo apontados. Os principais são:

a) a alteração da paisagem: fragmentação, degradação ambiental, perda de áreas naturais;

b) a intensificação agrícola: extensas monoculturas, uso abusivo de agrotóxicos e de fertilizantes inorgânicos, redução de margens com flores nas plantações;

c) a disseminação e a transmissão de parasitas e doenças: pode ocorrer dentro da mesma espécie e, ainda mais preocupante, entre espécies diferentes;

d) as mudanças climáticas: causam incompatibilidades espaciais e temporais entre as abelhas e as plantas que fornecem seu alimento;

e) a introdução de espécies em ambientes onde elas não ocorriam antes.

Ações amigáveis:

Assim, muitos estudos apontam não se tratar de um evento único, mas de uma interação entre eles. Ao conhecermos os impactos ambientais e econômicos da redução das abelhas, medidas de mitigação devem ser implantadas e estimuladas, a fim de garantir serviços de polinização sustentável em um planeta que está em constante e acelerada mudança.

Essas medidas podem ser realizadas por toda a sociedade: cidadãos, produtores rurais, criadores de abelhas, cientistas, professores, políticos. São medidas simples, que tanto podem ser utilizadas no campo como nas cidades. Ações como plantar flores e árvores nos jardins e praças do bairro, fazer a manutenção destes espaços urbanos, são essenciais para fornecer continuamente alimentos para as abelhas.

Na área rural, um conjunto de ações é essencial para a conservação das abelhas e de outros polinizadores e podem promover melhorias nos serviços ecossistêmicos. 

Entre elas:
- Conhecer e identificar as abelhas nativas e os locais que elas habitam nas propriedades rurais, como troncos, solos, barrancos, orifícios abandonados por outros insetos;
- Manter áreas naturais que abriguem o máximo possível uma diversidade de espécies de plantas, fornecendo uma variedade de alimentos aos insetos, e próximas às áreas de cultivos;
- Recuperar a vegetação nativa, utilizando plantas que atraiam e mantenham os polinizadores e criando mosaicos/áreas de refúgio;
- Cultivar plantas atrativas aos polinizadores próximos às lavouras e nos jardins, plantas estas que irão fornecer e enriquecer a oferta de alimentos às abelhas;
- Colocar e manejar os ninhos de abelhas próximas às áreas de culturas que necessitam de polinização, melhorando a qualidade e rendimento da lavoura;
- Não aplicar defensivos agrícolas nos horários de visitas das abelhas aos cultivos, para tanto é importante conhecer o processo da polinização;
- Adotar práticas agrícolas amigáveis aos polinizadores como minimizar o uso de inseticidas; adotar sistema de manejo de solo que minimizem seu revolvimento, como plantio direto; aumentar a oferta de alimentos aos polinizadores por meio do cultivo de plantas atrativas próximas às culturas; e principalmente promover o diálogo contínuo entre os criadores de abelhas (apicultores e meliponicultores) e agricultores na busca de práticas sustentáveis e de respeito à produção.

Os estudos e pesquisas sobre as abelhas e outros polinizadores não estão concluídos e muito ainda há a se conhecer, destaca-se que todas as propostas indicadas acima visam melhorar e promover a conservação da biodiversidade dos polinizadores e os serviços ecossistêmicos associados - que, além da polinização, incluem a ciclagem de nutrientes, a qualidade dos corpos d'água, a formação de solos, a decomposição de matéria orgânica, o controle biológico de pragas e a resistência a doenças e patógenos. 

Muitas delas são ações que demoram a apresentar resultados e dependem da paisagem local, da variedade de culturas e de mudanças nas práticas agrícolas. Contudo, são essenciais para a manutenção dos polinizadores e produção de alimentos e da diversidade vegetal.

Autores:
- Ana Lucia Assad - Economista. Doutora em Política Científica e Tecnológica pela UNICAMP. Diretora Executiva da Associação Brasileira de Estudos das Abelhas - A.B.E.L.H.A.
Denise de Araújo Alves - Bióloga. Doutora em Ecologia pelo Instituto de Biociência da Universidade de São Paulo. Pós-doutora da Universidade de São Paulo.

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