quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

De quem é a responsabilidade pelas crianças?


As crianças deveriam ser protegidas como diz um dos capítulos do estatuto da Organização das Nações Unidas. Deveriam ter direito a educação, a saúde e a moradia. Mas tudo isso fica apenas no papel. 


Há um jogo de empurra e empurra nesta história. As prefeituras dizem que o problema é do Estado. O Estado diz que o problema é do Governo Federal. 

Todos os poderes afirmam que o problema é dos pais que não assumem a responsabilidade pelos direitos da criança. Por sua vez o pai, se questionado, diz que o problema é da mulher que não cuida dos filhos. 

A mãe se defende dizendo que o pai é que não assume as suas responsabilidades, sustentando e amparando os filhos. E assim as crianças ficam ao Deus dará. Como Deus não se envolve com os problemas dos mortais antes do juízo final, um número cada vez maior de crianças ficam abandonadas nas ruas, sem escola, sem alimentação, sem roupas, sem moradia e sem atendimento à saúde.

Afinal, de quem é a responsabilidade pelas crianças? A melhor resposta que conheço veio de um amigo senegalês durante um bate papo aqui em casa há alguns anos atrás, Mamour Alimane Bah, príncipe da tribo dos Peus no Senegal, comentou que entre eles as crianças não pertencem somente aos pais, mas à comunidade. 

Todas as pessoas são responsáveis pelas crianças, independentemente de serem pais biológicos ou não. Se os pais são incapazes de proteger as crianças, seja por doença, pobreza ou por morte, qualquer indivíduo as acolherá, sem nenhum tipo de restrição, pois proteger crianças cabe à sociedade em que elas foram geradas. 

Esse acolhimento não é visto como filantropia, mas como parte da cidadania. Ele foi mais longe ao dizer, também, que em seu país, qualquer homem se sente honrado em deixar que outro membro muito respeitado na comunidade por sua honra, sabedoria e comportamento seja o pai do seu filho. 

A criança não é vista como uma propriedade dos pais com direitos irrefutáveis sobre as crianças, como nas sociedades ocidentais, mas como seres que precisam de proteção, educação e exemplos, venham de onde vier.

Infelizmente em nosso país ninguém se responsabiliza verdadeiramente pelas crianças abandonadas, como se isso não dissesse a respeito de ninguém. Cada um por si e a fortuna proverá a todos. 

Mas a realidade é que todas essas crianças que crescem nas ruas sem educação, sem saúde, abrigo e alimentação, não serão cidadãs com os valores que nossa sociedade espera. 

Somos todos, sem exceção, o resultado de uma cultura associada com valores que não nascem com as pessoas, não estão no DNA. Se esses valores não são aprendidos, a nossa sociedade vai criar pessoas que nunca terão respeito pela propriedade alheia, pelos idosos, por outras crianças, pelas mulheres, pelo patrimônio público, pela cultura e estarão abertos à cooptação pelo crime, organizado ou não, e pela violência.

Assim, é possível dizer sem medo de errar, que somos todos culpados. Todos desviam os olhares quando veem, de abandono dos nossos semelhantes. Não basta dar esmolas, campanhas do agasalho e outras filantropias que só servem para apaziguar as consciências pesadas. 

Enquanto a sociedade, envolvendo todos os poderes, todas as organizações, não assumir a responsabilidade pelas pessoas que são geradas em seu interior, jamais o problema será resolvido e continuaremos com discussões bizantinas como maioridade penal, internação etc.


Fonte: Renato Ladeia - Prof. do curso de Administração da FEI

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