quinta-feira, 17 de março de 2016

Em Política, tudo pode! Será?


A República brasileira está passando por uma fase de enorme turbulência. A crise econômica e política tem determinado não só as pautas da grande mídia como, também, o dia a dia dos brasileiros, seja na padaria, no local de trabalho e, claro, no ambiente doméstico; uma simples ida ao supermercado demonstra o lado mais perverso do cenário nacional na atualidade, pois com o aumento da inflação e a disparada nos preços, o poder de compra dos brasileiros é cada vez menor.

Não bastasse ser este o cenário no momento, as perspectivas não são nada boas em um curto e médio prazo. Crises de natureza diversa sempre estiveram presentes nas histórias dos povos e, geralmente, foram debeladas com atuação política certeira. 

No mundo grego, quando as crises surgiam, era comum a tentativa de usar a linguagem como phármakon, um remédio que tinha a propriedade de promover cura, sabendo também que, quando mal utilizado, o phármakon podia ser um veneno que matava o moribundo – ou, ainda, um cosmético que dissimulava e ocultava a verdade. Nossos políticos parecem conhecer bem as duas últimas propriedades do phármakon.

A divulgação da delação premiada do Senador Delcídio do Amaral, até outro dia líder do governo no Senado, trouxe uma “substância farmacológica” digna de reflexão, uma verdadeira “pérola” do atual Ministro da Educação Aloizio Mercadante quando, em conversa com um dos assessores de Delcídio, ele assim sentenciou: “Em política, tudo pode! ”. O que devemos perguntar em tom retórico ao nobre Ministro é: Será?

Com certeza, a maioria dos políticos responderá “sim”, pois conhecem muito bem os bastidores e meandros da política tupiniquim, mas, com certeza, a população dirá um sonoro “não”, pois esta sonha com uma política que seja feita em favor de todos, pautada pela probidade, integridade de caráter e pelo respeito às leis e às instituições. 

Enquanto o povo quer cura para os seus males, nossos digníssimos representantes mascaram a realidade e abusam da dose, tanto na palavra como no poder, gerando veneno que vai aos poucos matando sonhos e esperanças. Nesta hora, é bom que os nossos políticos lembrem uma frase preventiva e curativa, proferida pelo apóstolo Paulo: “tudo me é permitido, mas nem tudo convém”; seja na vida privada ou na vida pública, ninguém pode tudo.

Enquanto isso, a Operação Lava Jato, apoiada com mérito e justiça pela grande maioria do povo brasileiro, tem demonstrado a podridão e baixeza moral de boa parte dos nossos políticos no que tange ao trato com a coisa pública. 

Por isso, pode-se dizer que a crise que passamos não é somente política e econômica, mas, sobretudo, moral. Como o caso envolve um Ministro da Educação, gostaria de lembrar uma história que reforça o papel da educação na formação do caráter de um povo. 

Dizem que Licurgo, legislador de Esparta, criou dois cães, dois irmãos, ambos alimentados com o mesmo leite, um engordado na cozinha, outro acostumado aos campos, ao som da trompa do caçador. 

Querendo mostrar ao povo que os homens são o que a educação os torna, colocou os dois cães em pleno mercado, e entre os dois, um prato de sopa e uma lebre: um correu para o prato, o outro para a lebre, apesar de serem irmãos. 

Se os cães são capazes de aprender, tanto mais nós, animais políticos em essência, que querem dos seus representantes a dose certeira dephármakon que cure as chagas purulentas da nação.

Fonte: Gerson Leite de Moraes é doutor em Filosofia e professor da Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em Campinas.

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