sexta-feira, 8 de julho de 2016

Chega ao fim a histórica “Cavalgada do Sertão ao Mar, Pelos Caminhos da Estrada Real”

                                                                                 Marcelo Mastrobuono

A Estrada Real é a maior rota turística do Brasil, composta por 1780 quilômetros divididos em quatro caminhos por sua extensão: Caminho dos Diamantes, Caminho Velho, Caminho Novo e Caminho de Sabarabuçu; todos contam com demarcações em seus pontos que percorrem o interior de três Estados brasileiros: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Sua história vem do século18, quando a Coroa Portuguesa construiu os caminhos para o trânsito de ouro e diamantes de Minas Gerais ao Rio de Janeiro. 


Atualmente a Estrada Real é um verdadeiro “patrimônio” histórico, cultural e turístico do Brasil e seu percurso pode ser percorrido de carro, a pé, de bicicleta ou a cavalo. E foi montando sete cavalos Mangalarga que os cavaleiros José Henrique Meirelles Castejon e Paulo Junqueira Arantes realizaram esta grandiosa aventura. No início da jornada, no Caminho dos Diamantes, a viagem começou contando com cinco cavaleiros. Além de Paulo e José Henrique, acompanharam a largada com a dupla, em Diamantina/MG, mais três cavaleiros: Frederico Simioni, Sérgio Lima Beck e Beatriz Biagi Becker. Juntos, os cinco cavaleiros percorreram o primeiro trajeto que compreendeu cerca de 200 quilômetros. Em seguida, a cavaleira Beatriz deixou o grupo que seguiu em quarteto pelo próximo trecho da aventura, até o final do Caminho dos Diamantes, que soma 395 quilômetros e foi percorrido pelos quatro cavaleiros em 10 dias, finalizando no dia 19 de maio em Ouro Preto. Neste primeiro trecho, além das maravilhas da natureza que encontraram pelos caminhos, os cavaleiros se impressionaram bastante com a precariedade da estrada, marcada pela falta de conservação e sinalização. 


Outro momento que marcou esta primeira etapa da cavalgada foi a passagem pelas cidades afetadas pelo rompimento das Barragens de Fundão e o consequente desastre socioambiental de 2015, em Bento Rodrigues e Mariana. “Nestes trechos, aonde ocorreu o desastre ecológico, precisamos colocar os cavalos em um caminhão para cruzá-los, não sendo possível passar pelo trecho cavalgando”, comentou Paulo Junqueira Arantes. O antigo Caminho do Ouro – Caminho Velho foi o próximo desafio da jornada, que começou dia 20 de maio em Santo Antonio do Leite/ MG rumo a Paraty/ RJ, um trecho composto por 710 quilômetros que foi o primeiro caminho oficialmente aberto pela Coroa Portuguesa ligando o litoral rumo ao interior de Minas Gerais. 


Seguiram a viagem a partir deste caminho a dupla José Henrique Castejon e Paulo Junqueira Arantes. Este trecho durou 17 dias, ante os 60 dias que eram previstos no século 18 da construção deste trajeto, confirmando a incrível resistência dos cavalos Mangalarga e registrando um momento muito importante na cidade de Cachoeira do Campo, aonde os cavaleiros visitaram o prédio da Antiga Coudelaria Real, edificação construída em 1730 para ser o Quartel da Cachoeira, teria recebido Tiradentes em 1789, durante a Inconfidência Mineira. O prédio foi transformado em Coudelaria em 1819, sendo adaptado para receber os cavalos que vinham do Reino para o Brasil, assinando um importante momento da história do Mangalarga. 

Outro trecho marcante na viagem pelo Caminho Velho foi na região de Itanhandu quando os cavaleiros passaram pelo Túnel da Mantiqueira, construído em 1882 por determinação do Imperador Dom Pedro II, para fazer a ligação entre os Estados de São Paulo e Minas Gerais para servir a Estrada de Ferro Minas e Rio, sendo também, local estratégico na Revolução Constitucionalista de 1932, na qual foi frente de batalhas. 

“A passagem do túnel, na divisa dos Estados, não foi muito fácil e os cavalos Mangalarga, mais uma vez, mostraram seu preparo e sua coragem. Foram 1400 metros de travessia no escuro, com o som das patas dos nove cavalos criando um barulho forte. Os cavalos tiveram que caminhar no meio dos trilhos, sobre pedras e os dormentes. Experimentamos deixar soltos os cavalos puxados mas não deu certo, pois eles passaram dos cavaleiros e, depois, retornaram, criando uma grande confusão no espaço estreito do túnel”, lembrou o cavaleiro Paulo Junqueira Arantes.


Em seguida, os cavaleiros partiram desbravar o terceiro caminho da Estrada Real: o Caminho Novo, que é composto por 515 quilômetros que ligam as cidades de Porto Estrela/RJ a Ouro Preto/ MG. A história deste trecho da Estrada Real começou em 1698, quando uma Carta-Régia endereçada a Artur de Sá Menezes, então Governador da Capitania do Rio de Janeiro, autorizava a abertura do novo caminho para facilitar o transporte do ouro e pedras preciosas de Minas Gerais para o Rio de Janeiro, evitando o antigo caminho. Este trecho foi percorrido pelos cavaleiros em incríveis 14 dias e além das lindas paisagens rurais, um detalhe urbano roubou a cena dos cavaleiros: as igrejas católicas construídas em todas as cidades por onde passaram, quase todas da época de Colônia do Brasil e muitas, inclusive, contam com esculturas de Aleijadinho. 



“Pelos Caminhos da Estrada Real passamos por muitas igrejas lindas, as vezes suntuosas outra vezes simples, mas todas com sua beleza singular. Interessante notar a importância da religião na história do Brasil, representada por todas estas igrejas ao longo dos quatro Caminhos. Qualquer bairro tem sua igreja, sempre com mais suntuosidade do que as casas que o compõe!”, descreve José Henrique Meirelles Castejon. Inclusive, ao finalizar o Caminho Novo, os cavaleiros visitaram a Igreja São Francisco de Assis, em Ouro Preto/MG, Santo considerado o “protetor dos animais” – além de tantas outras dezenas de igrejas visitadas durante o percurso. 

E finalmente, dia 20 de junho, os cavaleiros e a tropa Mangalarga iniciaram os últimos quatro dias da Cavalgada do Sertão ao Mar, rumo ao Caminho do Sabarabuçu, com 160 km de extensão entre os municípios de Glaura/MG a Cocais/ MG, finalizando a louvável aventura na quinta-feira, dia 23 de junho. Neste último trecho, os cavaleiros vivenciaram o único incidente de toda cavalgada: uma queda sofrida por José Henrique em um dos trechos, mas que, por sorte, marcou apenas um susto, não deixando nenhuma sequela.


Esta é a primeira vez que se tem registro de um grupo de cavaleiros que completam todo o trajeto da Estrada Real ininterruptamente, registrando de perto a história do Brasil, as belezas naturais de três Estados de grandiosa importância para a economia nacional e, ainda, a cultura local de dezenas de cidades de renome como Diamantina, Serro, Mariana, Ouro Preto, Congonhas,Tiradentes, São João del Rey, Cruzília, Juiz de Fora, Barbacena, Conselheiro Lafayete, Lavras Novas, Sabará, Caeté/ MG e Lorena, Guaratinguetá, Aparecida / SP e Paraty, Petrópolis, Paraíba do Sul/ RJ.




Além disso, um dos desafios da cavalgada foi prevalecer o bem-estar animal dos sete cavalos mangalarga que acompanharam todo trajeto, respeitando seus limites e experimentando seus desafios. Neste quesito, a nota dos cavaleiros foi dez. “Esta cavalgada representa um grande marco para a raça mangalarga que mostrou, durante toda a cavalgada, suas grandes características como docilidade, coragem, agilidade, andamento, além de uma agradável interação conosco nos provocando muitas sensações e fortes emoções !”, ressalta José Henrique Meirelles 
Castejon. Após o merecido descanso, os cavaleiros adiantam que estudam lançar um livro repleto de fotos inéditas que retratam cada detalhe da Estrada Real, além de depoimentos emocionantes desta aventura histórica – para deleite daqueles que apreciarão conhecer um pouco mais desta rica fatia da história do Brasil!


Fonte: Luciene Gazeta

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